Li, ouvi, vi, sei lá, em algum lugar que também não me lembro, algo sobre o inferno como uma eterna fila de espera. Versões alternativas de infernos são até bem populares - porque aqueles foguinhos e caldeirões e espetos já estão muito manjados. Sartre descreveu o inferno certa vez como passar a eternidade numa sala com pessoas extremamente chatas. Já vi um filme em que cada um tinha "o que merecia" dependendo de como foi em vida e então o menino passava a eternidade num jantar com parentes, durante o qual uma tia velha e com dentes amarelos tentava beijá-lo.
Nunca acreditei em vida após a morte, mas já criei até a minha própria versão do inferno. No meu inferno, eu teria aulas de Química Orgânica no sábado à tarde durando mais ou menos para todo o sempre. O elevador da biblioteca da faculdade pararia para um conserto eterno de 10 dias e eu teria que escalar mais milhões degraus para pegar um livro, depois desceria as milhões de escadas, repleta de livros inúteis sobre matérias detestadas. Teria uma semana para fazer um trabalho sobre "os mapas na era digital", pegaria ônibus lotado, cheio de gente exigindo que os estudantes andem pendurados no espelho retrovisor. E durante as eternas aulas de Quimica Organica de sábado à tarde, o professor me mandaria resolver no quadro varios mecanismo de Corey-House,Markovinikov e me pedir todas as nomenclaturas da Iupac.
Parei de culpar Murphy por isso, que nem ele poderia influenciar tanto assim a vida de alguém. Minha vida após a morte mistura clichês de filmes diferentes. Eu morri e não me dei conta, cada um tem o que merece por seus atos quando vivo, inferno é algo personalizado.
Um pouco mais......
Silêncios Constragedores
Todo mundo odeia os silêncios constrangedores, afinal de contas, sejam eles à la Chaves - todo mundo se cala e um débil mental continua falando BEM ALTO o que não devia - ou os de elevador. Odiar os silêncios constrangedores é uma das poucas coisas que unem a humanidade. Eu não tenho os números exatos nem nada, mas aposto que a pesquisa "o que é que você mais odeia?" foi a única com a mesma resposta em todos os países do mundo. E adivinhem só qual foi ela.
O estranho é que eu não odeio os silêncios de elevador tanto assim. Não tenho a ambição de fugir à única regra que une a humanidade, claro, mas acho que o silêncio de elevador pode sim ser superado por algo muito mais terrível: o papo de elevador.
Invariavelmente, algum bundão olhará para você, e dirá:
- Tá frio, né? Deve chover...
- Hahaha. Claro que deve, esqueci o guarda-chuva. Tinha que chover.
- Hehehehehe.
E o silêncio e a apreciação da vista são transformados em uma conversa mongol com piadinhas sem graça. Ninguém olha pro espelho e ao reparar a pele maltrada do seu vizinho "puxa, seus poros parecem meio sujos, hein?" com o tom de poxa-vida-mas-que-coisa empregado em conversas sobre o clima. Nunca vi ninguém se propor a debater "será que se o elevador começar a cair e a gente pular alguns segundos antes do impacto a gente morre do mesmo jeito?".
A saída de falar sobre o futebol só funciona se você for homem e tiver encontrado o porteiro. No elevador é o tempo maluco, o Katrina e a frente fria que conversa chata nunca varia.
Aliás. A frente fria não só prejudica a plantação como também prejudica o convívio social e a apreciação da vista. Mas por favor, vamos falar de outra coisa.